Existe um exercício simples que qualquer pessoa pode fazer numa manhã de semana em Lisboa, antes de as ruas encherem de turistas e de pressa. Levante-se cedo, saia de casa com calma, e percorra a pé um dos bairros históricos — Alfama, a Mouraria, o Intendente, o Bairro Alto. Não procure nada em particular. Apenas caminhe e olhe para cima. Para as fachadas. Para as paredes. Para os prédios que teimam em permanecer de pé apesar de tudo o que o tempo, a negligência e a especulação imobiliária têm feito para os apagar.

O que verá é simultaneamente uma das coisas mais belas e uma das mais inquietantes que Portugal tem para oferecer. Belas, porque as fachadas azulejadas destes bairros têm uma qualidade estética que nenhum outro país do mundo conseguiu replicar. Inquietantes, porque muitas dessas fachadas mostram sinais de um ferimento que vai além da simples deterioração natural. Há azulejos partidos. Há manchas escuras onde as peças foram arrancadas. Há prédios inteiros cujas fachadas são uma colagem de remendos — alguns azulejos originais, outros substituídos por peças modernas que não combinam, outros simplesmente desaparecidos, deixando à vista o reboco cinzento por baixo. Como se alguém tivesse rasgado páginas de um livro e as tivesse atirado fora.

Porque foi exactamente isso que aconteceu. E continua a acontecer.

Lisboa — a cidade mais azulejada do mundo, e o que isso significa

Lisboa é, segundo os especialistas, a cidade com mais azulejos decorativos do mundo. Não é apenas uma afirmação turística para encher brochuras — é uma realidade quantificável que resulta de cinco séculos de uma tradição arquitectónica única. Em nenhuma outra capital europeia o azulejo se tornou tão sistematicamente parte da arquitectura urbana. Em nenhuma outra cidade o azulejo existe em tanta variedade, em tantos estilos diferentes, cobrindo tanta superfície.

Para compreender a escala deste fenómeno, é necessário perceber que em Lisboa o azulejo não é apenas decoração de palácios e igrejas — é revestimento de habitação comum. Os prédios de rendimento do século XIX e início do XX, construídos para famílias de classe média e baixa, têm fachadas azulejadas que rivalizam em beleza, se não em sofisticação técnica, com os grandes conjuntos barrocos. O azulejo de fachada era prático — protegia as paredes da humidade e reduzia os custos de manutenção — e era social — funcionava como uma declaração de status, de pertença, de identidade visual num tecido urbano denso onde cada fachada precisava de ser reconhecível.

E foi precisamente esta presença ubíqua — em cada rua, em cada bairro, em cada beco — que tornou o azulejo tão vulnerável. Uma fachada barroca num palácio tem guaritas e câmaras de vigilância. Uma fachada azulejada num prédio abandonado de Alfama não tem nada. Tem apenas a sorte — e a consciência cívica dos que passam.

Alfama e Mouraria — onde a beleza coexiste com o abandono

Os dois bairros mais antigos de Lisboa — Alfama e a Mouraria — são, ao mesmo tempo, os mais fotografados pelos turistas e os mais castigados pela destruição do património azulejar. A ironia é cruel: quanto mais visíveis estes bairros se tornam no imaginário turístico mundial, mais os seus azulejos correm o risco de desaparecer.

Em Alfama, o bairro que desceu pela encosta do Castelo de São Jorge até à beira do Tejo, as fachadas azulejadas são uma das razões principais pelas quais os visitantes acordam cedo para fotografar as ruelas antes de cheio de gente. Mas debaixo da beleza fotogénica existe uma realidade preocupante: décadas de abandono de muitos dos edifícios, a ausência de manutenção regular, e a pressão crescente da especulação imobiliária que transformou Alfama num dos bairros mais valorizados do mercado de alojamento local. Quando um proprietário decide remodelar um prédio antigo para o transformar em apartamentos turísticos, a fachada azulejada é frequentemente tratada como obstáculo, não como activo.

Na Mouraria — o bairro histórico que ficou de fora do plano pombalino de reconstrução e que manteve, por isso, uma densidade urbana medieval que é ao mesmo tempo o seu encanto e o seu fardo —, o problema dos azulejos roubados chegou ao ponto de ser debatido na Assembleia Municipal de Lisboa. Em 2014, o encerramento de uma esquadra da PSP no bairro gerou um alarme imediato entre as associações de moradores: sem presença policial regular, os painéis de azulejos rococó dos séculos XVII e XVIII que decoravam as fachadas de alguns dos edifícios mais antigos ficavam completamente desprotegidos.

O caso do Edifício Amparo, classificado como imóvel de interesse público na zona de Martim Moniz, é exemplar. O edifício possui painéis de azulejos do século XVIII com cenas bíblicas que resistiram a séculos de história — mas a ausência de conservação activa coloca esses painéis em risco permanente. A presidente da associação "Renovar a Mouraria" foi clara em declarações à imprensa: não existe qualquer programa de conservação para este riquíssimo património.

A anatomia de um crime — como se rouba um azulejo

Para a maioria das pessoas, roubar um azulejo parece algo difícil e conspícuo. Na realidade, é perturbadoramente simples. As técnicas mais comuns são a formão e o martelo — instrumentos básicos que qualquer pessoa pode adquirir numa ferramenta e que, em poucos minutos, permitem despregar um azulejo de uma fachada sem deixar outro rasto que não seja o vazio que fica na parede. Em fachadas de prédios abandonados, o azulejo está muitas vezes já fisicamente fragilizado pela humidade e pela deterioração do reboco subjacente: basta uma ligeira pressão para que se solte.

O mercado para estes azulejos existe e é activo. Feiras de antiguidades, lojas de objectos vintage, plataformas de venda online — há compradores suficientes para tornar o furto de azulejos um negócio rentável. Um azulejo histórico do século XVII ou XVIII pode valer, consoante o estado de conservação e a raridade do padrão, entre cinquenta e várias centenas de euros. Um painel completo, com dezenas ou centenas de peças, pode valer milhares. E os compradores, frequentemente turistas ou coleccionadores estrangeiros, raramente fazem perguntas difíceis sobre a proveniência das peças que adquirem.

Um dos casos mais documentados e mais chocantes foi o da Leitaria da Anunciada, em Lisboa, cujo friso de azulejos que havia decorado a fachada durante quase setenta anos foi arrancado em plena luz do dia, deixando um buraco na parede que tornou pública a dimensão do problema de uma forma que nenhum relatório de especialistas havia conseguido fazer. A imagem da parede mutilada circulou nos jornais e nas redes sociais, criando uma onda de indignação que, por alguns meses, tornou o tema uma prioridade mediática.

O custo do abandono

Lisboa perde cerca de 10 000 azulejos por ano. Entre furto, vandalismo e abandono de edifícios, a cidade vê dissipar-se, peça a peça, um Património que levou cinco séculos a construir e que não tem preço.

A imprensa internacional dá o alarme

Durante anos, o problema do roubo de azulejos em Lisboa foi tratado como uma questão local — um problema de gestão urbana, de policiamento insuficiente, de proprietários negligentes. Mas a escala do fenómeno tornou-se tão evidente que os grandes meios de comunicação internacionais começaram a cobri-lo, transformando o que havia sido um escândalo doméstico num tema de discussão global.

O Guardian, o New York Times, o Le Monde — todos publicaram reportagens sobre os azulejos que desapareciam das fachadas lisboetas. O paradoxo que estes jornais apontavam era doloroso: Lisboa havia-se tornado, em poucos anos, um dos destinos turísticos mais populares da Europa, atraindo visitantes que diziam amar exactamente aquela arquitectura única com azulejos e fachadas coloridas — e esse mesmo turismo estava a criar as condições para a destruição daquilo que o tornava único. O aumento do valor imobiliário associado ao turismo incentivava a renovação agressiva dos edifícios antigos; a maior circulação de pessoas criava mais oportunidades para o furto; a procura internacional de "autênticos" objectos de decoração portuguesa alimentava o mercado negro.

Havia também uma dimensão cultural mais subtil nesta cobertura internacional: o mundo olhava para Portugal e dizia que este país não estava a tratar devidamente de um dos seus activos mais valiosos. Era um aviso que os portugueses precisavam de ouvir — e que, em parte, ouviram.

A resposta — lei, policiamento e cidadania

A resposta das autoridades ao problema do furto e deterioração dos azulejos chegou de várias frentes, não todas coordenadas entre si, mas todas sintomáticas de uma consciência crescente de que era necessário agir.

Em 2017, o azulejo foi reconhecido por lei como património culturalmente protegido — um passo importante, embora os especialistas reconheçam que a lei, por si só, não é suficiente para proteger bens que estão ao ar livre e acessíveis a qualquer pessoa com uma formão e vinte minutos disponíveis. O 6 de Maio foi declarado o Dia Nacional do Azulejo, uma data simbólica que não protege nenhum painel concreto mas que serve para trazer o tema à atenção do público anualmente.

O Regulamento Municipal de Urbanização e Edificação de Lisboa (RMUEL) foi alterado para proibir expressamente a remoção de azulejos de fachadas históricas. Esta alteração tem implicações práticas: um proprietário que queira renovar um edifício e remover os azulejos da fachada precisa agora de uma autorização explícita da Câmara Municipal, que pode recusar se considerar que os azulejos têm valor patrimonial. Na prática, esta medida criou um travão importante ao processo mais insidioso de destruição do azulejo lisboeta — não o roubo, mas a remoção "legal" durante obras.

O projecto SOS Azulejos, promovido pelo Museu da Polícia Judiciária, opera há anos na prevenção do furto e na recuperação de peças roubadas. A PJ tem uma unidade especializada que trabalha neste tipo de crimes e que tem conseguido recuperar, ao longo dos anos, painéis inteiros que haviam sido furtados e que se encontravam em processo de venda. Mas os recursos são limitados e a escala do problema é grande: não é possível vigiar todas as fachadas de uma cidade de meio milhão de habitantes com um número finito de agentes.

A Fábrica Sant'Anna — onde a tradição nunca parou

No meio de tanta crise, há uma história de continuidade que merece ser contada. Em plena Lisboa, no Chiado, existe uma fábrica que funciona desde 1741 — a Fábrica Sant'Anna. Duzentos e oitenta e cinco anos de história ininterrupta de produção artesanal de azulejos, atravessando o Terramoto de 1755, as guerras napoleónicas, a monarquia constitucional, a república, a ditadura e a democracia, sem nunca fechar as suas portas ou abandonar os seus métodos.

Na Fábrica Sant'Anna, os azulejos continuam a ser produzidos exactamente como eram há séculos: à mão, peça a peça, por artesãos que aprenderam o ofício com os seus mestres, que o aprenderam com os seus, numa cadeia de transmissão que vai até ao século XVIII. As tintas são misturadas manualmente. Os padrões são traçados à mão sobre o esmalte branco. A cozedura é controlada com a atenção que só a experiência acumulada pode garantir.

Visitar a Fábrica Sant'Anna é uma experiência que não tem equivalente. Nos corredores e salas da fábrica, azulejos de todos os períodos históricos convivem com as obras em curso. Um mestre artesão pode reproduzir um painel barroco do século XVII com uma fidelidade que confunde os especialistas. Pode criar um padrão original que parece ter saído de uma mansão setecentista. Pode adaptar uma fotografia ou uma obra de arte qualquer à linguagem do azulejo. É a prova viva de que a tradição não é apenas memória — é competência activa, capacidade técnica que só existe enquanto há pessoas dispostas a aprendê-la e a praticá-la.

O Metro de Lisboa — uma galeria de arte debaixo da terra

Há em Lisboa uma galeria de arte que a maior parte dos seus utilizadores nunca visitou conscientemente — embora a percorram todos os dias. O Metropolitano de Lisboa, inaugurado em 1959, tornou-se ao longo das décadas seguintes um dos mais extraordinários projetos de arte pública do século XX, com os seus painéis de azulejos e murais criados pelos maiores artistas portugueses da época.

Tudo começou com Maria Keil, pintora que em 1957 aceitou o desafio de decorar as paredes das primeiras estações do metro com azulejos. O que Keil criou foi revolucionário: em vez de repetir os padrões históricos que toda a gente conhecia, inventou uma linguagem nova — geometrias abstractas, formas biomorphicas, padrões que dialogavam com o modernismo internacional sem abandonar a lógica do azulejo como arte de repetição e ritmo. Os painéis de Maria Keil para o metro de Lisboa são obras de arte de pleno direito, reconhecidas internacionalmente como marcos da arte pública do século XX.

Nas décadas seguintes, outros artistas juntaram-se ao projecto. Eduardo Nery, com os seus jogos ópticos que transformavam as paredes das estações em experiências quase alucinatórias; artistas internacionais que contribuíram com perspectivas diferentes mas complementares; e, nas estações de Alcântara e Rocha Conde d'Óbidos, os monumentais painéis inspirados em Almada Negreiros — o mais completo e inquieto artista português do século XX, que aqui surge num diálogo póstumo com os passageiros do metro através dos seus desenhos e citações reproduzidos em cerâmica.

Hoje, percorrer o metro de Lisboa com os olhos abertos para a arte que decora as suas estações é uma experiência que demora tempo — mais do que qualquer ligação de A a B justifica. É uma viagem pela história da arte portuguesa do século XX, democratizada e tornada pública de um modo que nenhum museu poderia replicar.

Add Fuel — o pixel que reinventou o azulejo

Em 2008, um jovem designer gráfico chamado Diogo Machado ficou obcecado com os azulejos. Não com os azulejos como objectos históricos a preservar, mas com os azulejos como linguagem visual a explorar, subverter, reinventar. Começou a trabalhar sob o pseudónimo Add Fuel — e o que criou nas décadas seguintes transformou completamente a percepção internacional do azulejo português como forma de arte contemporânea.

Add Fuel não copia os padrões históricos. Parte deles — das suas estruturas de simetria e repetição, das suas tradições de padrão e ornamento — e leva-os para um território completamente novo. As suas composições misturam a geometria clássica do azulejo com técnicas do trompe-l'œil, com referências ao pixel art digital, com narrativas visuais de uma complexidade que se revela lentamente, à medida que o olhar vai descobrindo camadas de sentido escondidas dentro da ordem aparente dos padrões.

O que distingue Add Fuel de outros artistas urbanos que trabalham com motivos portugueses é a profundidade do seu compromisso com a tradição. Não é um turista cultural que pegou num padrão bonito e o reproduziu numa parede. É alguém que estudou a fundo a história e a técnica da azulejaria, que compreende os motivos históricos a um nível que permite subvertê-los sem os desrespeitá-los. Os seus murais são simultâneos homenagem e interrogação: respeitam a tradição o suficiente para poder questioná-la.

O impacto internacional do trabalho de Add Fuel foi imediato e duradouro. Os seus murais estão em Lisboa, no Porto, em Berlim, em Miami, em Paris, em Montreal. Cada vez que aparece uma nova obra sua numa cidade estrangeira, ela carrega consigo a memória do azulejo português — mas apresentada de uma forma que a torna relevante para públicos que nunca viram uma fachada azulejada lisboeta. É diplomacia cultural das mais eficazes: não a que vem em comunicados oficiais, mas a que existe nas paredes das cidades, disponível para todos.

Vhils, Joana Vasconcelos e a nova geração

Alexandre Farto, que o mundo conhece como Vhils, trabalha na fronteira oposta à de Add Fuel. Se Add Fuel acrescenta — cobre paredes de padrões e cor —, Vhils subtrai. A sua técnica característica consiste em escavar as superfícies das paredes — remover camadas de tinta e reboco — para revelar os rostos das pessoas que habitam os bairros onde trabalha. Mas nas suas obras mais recentes, Vhils tem incorporado cada vez mais o azulejo como material e como referência, reconhecendo nele um arquivo da memória colectiva que os seus próprios trabalhos tentam resgatar.

Joana Vasconcelos, a artista portuguesa mais internacionalmente reconhecida da sua geração, tem uma relação com o azulejo que é simultaneamente homenagem e crítica. As suas grandes instalações — que combinam artesanato tradicional com escala monumental e ironia conceptual — incorporam frequentemente azulejos como um dos materiais que constitui o "arquivo" da identidade feminina e popular portuguesa que ela interroga. Os azulejos de Vasconcelos não são apenas decoração: são argumentos. São a afirmação de que a tradição artesanal portuguesa — tão frequentemente desvalorizada como "arte menor" — merece ser levada a sério como linguagem artística de pleno direito.

Há ainda uma geração mais jovem de artistas, ceramistas e designers que trabalham com o azulejo de formas que não caberiam em nenhuma categoria estética convencional. Ateliers como o Zé dos Bois em Lisboa organizam residências e exposições que juntam artistas de diferentes países para trabalhar com o azulejo como plataforma de intercâmbio cultural. Oficinas de cerâmica espalhadas por todo o país formam novas gerações de artistas que conhecem a tradição histórica do azulejo mas não se sentem obrigados a perpetuá-la de forma acrítica.

O paradoxo do turismo — amar o que se destrói

Não há como contornar este tema: o turismo, que deveria ser um aliado na preservação do azulejo, tornou-se também uma das maiores ameaças à sua sobrevivência. Não por malícia, mas por um conjunto de pressões económicas que são difíceis de contrariar quando actuam em conjunto.

O aumento explosivo do turismo em Lisboa ao longo da última década — a cidade recebeu, antes da pandemia, quase quatro vezes mais turistas do que a sua população residente — criou uma pressão imobiliária que transformou profundamente os bairros históricos. Prédios que estavam ao abandono foram comprados, renovados e convertidos em alojamento turístico de luxo. Esta renovação é, em muitos casos, positiva: impede a degradação dos edifícios e traz vida a bairros que estavam a despovoar-se. Mas é, ao mesmo tempo, uma ameaça: renovar para o turismo significa frequentemente remover o que é "antigo" e "desgastado" — incluindo, demasiadas vezes, as fachadas azulejadas que definem exactamente o carácter histórico que os turistas dizem amar.

Existe também o fenómeno dos souvenirs. Lisboa está cheia de lojas que vendem azulejos — reproduções modernas de padrões históricos, mas também, em alguns casos, peças originais de proveniência duvidosa. Um turista que compra um azulejo "original" num mercado de rua pode estar, sem o saber, a adquirir uma peça que foi arrancada da fachada de um prédio histórico. O dinheiro que chega ao ladrão alimenta o ciclo de destruição.

A solução para este paradoxo não é simples — não passa por reduzir o turismo, o que seria igualmente destrutivo para a economia local. Passa por educar os visitantes, por criar mercados legais e transparentes para o azulejo artesanal autêntico (que existe em abundância), e por garantir que a legislação de protecção tem dentes suficientes para ser efectiva. Passa, acima de tudo, por uma decisão colectiva de que aquelas fachadas azulejadas não são apenas um cenário de fundo para fotografias de Instagram — são o próprio tecido cultural que torna Lisboa única, e que uma vez destruído, não volta a ser feito.

"O azulejo não é um souvenir. É uma parede. É uma história. É a memória de quem viveu naquele prédio, naquela rua, naquela cidade. Arrancar um azulejo de uma fachada não é roubar um objecto — é apagar uma memória."

O azulejo como espelho da alma portuguesa

Para além de todas as questões de preservação e de política cultural, há uma dimensão do azulejo no presente que escapa às categorias pragmáticas e que diz respeito àquilo que os portugueses acreditam ser — ou gostariam de ser.

O azulejo é um dos poucos elementos da cultura visual portuguesa que transcende as divisões de classe, de região e de geração. Está nos palácios e nas casas modestas. Está nas igrejas e nas tabernas. Está nas estações de metro e nos mercados de peixe. Está em Lisboa e no Porto, em Aveiro e em Évora, em vilas do interior que nunca tiveram relevância histórica para a corte mas que construíram as suas igrejas com os mesmos azulejos que decoravam os palácios reais.

Esta ubiquidade é, simultaneamente, a maior fraqueza e a maior força do azulejo no presente. Fraqueza, porque aquilo que está em todo o lado tende a ser menos valorizado — torna-se fundo, paisagem, o que se vê sem ver. Força, porque o azulejo não precisa de ser procurado ou adquirido ou cultivado: está simplesmente lá, disponível, democrático, para toda a gente que tiver olhos dispostos a olhar.

O presente do azulejo é, portanto, uma questão de atenção. De decidir parar, olhar, reconhecer. De recusar a normalização do esquecimento. De compreender que as fachadas azulejadas das nossas cidades não são um dado adquirido — são uma conquista frágil que pode desaparecer mais depressa do que imaginarmos, se não fizermos o esforço activo de a proteger e de a valorizar.